Quando é que demais é demais?

por Ana Sousa Amorim (@tresantesdostrinta)

Quando era miúda adorava séries de advogados. Via as mulheres de fato com saltos que
fazem barulho, sempre cheias de afazeres e invejava aquela vida adulta. Por mais ridículo
que me pareça hoje, sei bem que glamorizei a vida de trabalho. Lembro-me de achar que
ter uma lista de coisas para fazer cheia era um objectivo de vida muito chique. Seria feliz a
ser produtiva. Seria feliz com muito trabalho.

“…enquanto dormia a lista de afazeres passava no pano de
fundo do meu sonho…”


Caí na esparrela. Mergulhei no mundo adulto a toda a velocidade e quando dei por mim
concluí, estupefacta, que raio de vida é esta?. Acordar cansada. Não de me ter deitado a
horas impróprias depois de andar na noite (coisa essa que já nem existe), consumir uma
série inteira ou terminar um livro às tantas. É acordar exausta mesmo depois das
prescritas 8 horas de sono. Porque enquanto dormia a lista de afazeres passava no pano de
fundo do meu sonho, o cansaço acumulado de cuidar de crianças demora a sair do corpo,
como cola super potente que agarra a tudo à primeira e depois quando se tira deixa gosma
que resiste até a diluente.


Quando é que o demais é demais? Nos últimos tempos, o esgotamento das mães e pais
entrou na conversa pública. E apraz-me muito que se tenha esta discussão porque num
mundo em que todos romantízámos o trabalho, o cansaço, o estar a mandar emails à noite
e ter muita coisa para fazer a toda a hora é importante lembrar que há um limite, mesmo
que insistamos permanentemente que não há nada fazer, o mundo é assim, ou nos
adaptamos ou perdemos o barco.


Não tem de ser. O cansaço tem limites, a exaustão é sintoma de um corpo doente a pedir
descanso. E o descanso pode não ser só dormir 8 horas. Há muitas mães no limite, há
muitos pais no demais, há muita gente a acusar o cansaço acumulado que não tem ponto
específico de início e parece não ter dia de fim.

“Quero deixar de ouvir falar de depressão e esgotamento como algo
que só acontece aos fracos.”


Quero normalizar o não fazer nada. O tirar férias para estar. O ir pôr os miúdos à escola
para dormir. O não ter vida social digna de registo e não ter férias preenchidas cheias de
actividades. Quero normalizar pedir ajuda. Quero saber quando parar e aprender a dizer
não, mas sem ser só da boca para fora. Quero estabelecer limites amigáveis, quais regras
do jogo que se sumiram no mundo digital muito permeável a destruir barreiras trabalho –
casa, sonho – realidade. Quero deixar de ouvir falar de depressão e esgotamento como algo
que só acontece aos fracos. Quero normalizar a celebração dos que percebem os limites
antes de os atingir. Às vezes o menos não é somenos porque o demais quando verte é
insustentável. Paremos antes.

livraria ama livros

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