Humanos 2.0

Humanos 2.0

por Ana Sousa Amorim

Quando a pandemia começou, o pensamento positivo vazio daquele diz que tens de ir em frente
só por dizer fez amor com a ingenuidade dos que são apanhados desprevenidos e fizeram muitos
filhos: as narrativas de que vai ficar tudo bem, que isto é uma oportunidade para valorizarmos o
que interessa, que os golfinhos voltariam às cidades poluídas, que nos reconectaríamos com as
crianças obrigadas a gramar com os pais a toda a hora, entre outros. Houve descendência vária e
tudo com muito conteúdo partilhável, viral e animador. Íamos ficar melhores. Renovados. Íamos
ser humanos 2.0. Versão com update, com uma pandemia no bucho, sobreviventes e felizes.
Não me limitei a recusar a visão romântica, na altura neguei que tudo isto sequer nos
mudaria. Achei que íamos ficar iguais. Qual personagem plana que serve só para enfeitar: não
muda, só reage, não acrescenta à narrativa, é a mesma no início e no final do livro. Nós seríamos
planos. A pandemia correr-nos-ia na história — as exceções confirmariam a regra, claro —, mas,
no geral, aprender não aprenderíamos nada.


E se hoje, mais de um ano depois, continuo a achar que não mudámos para melhor, já acho que
igual não ficámos.


Talvez tudo isto já andasse a ser trabalhado há anos e não tenha reparado (ou querido reparar).
Mas, a mim, as pessoas soam diferentes. Como se o mundo tivesse parado, e nós, os humanos,
tivéssemos perdido a pele e entrado em metamorfose. Os tais humanos 2.0, mas não melhor, nem
renovados, antes apurados, com arestas limadas e vértices aguçados. Esta versão já sabe que não
ficámos melhor e já nem espera que o renascimento da humanidade chegue. Esta versão sabe-se
diferente, mas já nem se conhece. A pandemia privou-nos da melhor ventilação dos pormenores
da vida: o contacto, o convívio involuntário, desprovido de ponderação e risco. E sem ele
perdemos o teste social das nossas ideias, medos, ambições e rotinas. E ficámos reativos, sem
paciência para o outro, para o seu contexto e a sua história.


A pandemia afastou-nos. Tapou-nos a boca impedindo-nos de ler lábios e ouvir com os olhos.
Aterrou acrílicos entre nós que não perturbam nada, dizem aqueles que sabem que não é mesma
coisa. Celofanou terminais de pagamento multibanco e afins e nós habituámos a temer o outro, o
seu rastro, cheiro e higiene. Isolou-nos nas nossas casas munidos de meios de chegar a todo lado
— a solução insidiosa para a distância: as videochamadas, as videoreuniões, os videolançamentos
de produto, os videojantares, os videosencontros, os videoaniversários. E nós aderimos, certos
que nada mudaria como se as nossas vidas coubessem em muitos quadradinhos de cada casa,
cada vida, alinhados lado a lado sem se tocarem.


Era impossível esperar que tudo isto tivesse outro resultado que não tudo isto. A mudança. Este
admirável mundo novo, cheio de pessoas em atualização, a reagir. Talvez a polarização, as
emoções à flor da pele, as reações absurdas que não percebemos mesmo quando tentam explicar
sejam só a natureza a defender-nos.


Os humanos pós-pandemia são mais leves, perderam espetro, agora somos 2.0, a favor ou contra.
Vivia melhor há um ano, quando achava que podia ser a mesma depois disto. Agora sou outra.

Add Comment

Your email address will not be published. Required fields are marked *