Emílio Calçada Pomar, o cronista

Emílio Calçada Pomar, o cronista

por cronista mistério J.A. Cardoso

A Infopédia refere que a crónica não deve agredir o descanso do leitor, mas eu pergunto-me se é suposto o leitor ter descanso, ou se a sua raça existe para ser cutucada com a varinha mágica da curiosidade. 

Seja em que sentido for, a verdade é que a crónica está na moda. Todos aqueles que consigam juntar entre 500 e 700 caracteres de forma mais criativa, polémica ou mesmo sarcástica podem apelidar-se de “cronista”. Atentemos no diálogo exemplificativo:

– O que fazes na vida?

– Sou cronista.

– Que giro. E onde publicas? 

– Numa plataforma digital cultural.

– Deves ser uma pessoa bastante interessante.

O que é que a suposta “pessoa bastante interessante” decidiu ocultar? Não só “ser cronista” não é o seu ganha-pão (na realidade é calceteiro – nada contra, aliás, um dos candidatos mais competentes às últimas eleições para a Presidência da República também o era!), mas também que a “plataforma digital cultural” que supostamente o contrata é o seu blogue – e todos sabemos o tráfego que os blogues pessoais que não são assinados por qualquer Pipoca, seja ela Doce ou Amarga, têm, ou neste caso não têm.

Mas a verdade é que ele não precisa de ser um cronista assalariado para se poder apresentar como tal, para isso basta que escreva crónicas, todos os dias, sem nunca desistir. Ele tem a certeza de que é calceteiro porque, além desse título constar da sua folha de ordenado, todos os dias calceta, e na pastelaria ao despertar da manhã todos o cumprimentam como Emílio Calçada, quando o seu verdadeiro nome é Pomar. Mas quando a noite cai, Emílio Pomar hidrata as suas mãos calejadas das pedras, senta-se ao computador e discorre sobre os temas quentes que ouviu nas notícias no seu rádio AM/FM a pilhas durante o dia. Desta feita, Emílio Pomar, que é também Calçada, encarna aquele que sente ser o seu verdadeiro “eu”, Lopes de Castro, acreditando que dos nossos sonhos podem advir os futuros a que nos dedicarmos se encontrarmos formas de nos adaptarmos ao que a realidade nos oferece. 

Até à nossa próxima crónica,

A.J.Cardoso

J.A. Cardoso nasceu entre 1930 e 1990. Algures entre o norte o sul. A ideia da crónica mistério veio da cabeça da livreira. “O que achas da ideia de teres uma crónica mistério no blog da livraria?”. Aceitou de imediato, entre gargalhadas. Para quem não sabe, eu adoro um bom mistério e bons desafios (Elena Ferrante, Leituras Top Secret, Caixas Mistério, precisam de mais provas?). Ela também. Ninguém sabe quem é, mas anda no meio de nós. Pela internet, claro. É alguém perspicaz e curiosa.Bem disposta, como vão poder comprovar através das suas crónicas. Um pequeno aviso: as ideias da cronista mistério A.J.Cardoso são da responsabilidade da cronista. Vamos deixá-la ser livre. Ou será que é um homem?

Vou soltando pistas ao longo das próximas, combinado? Queremos feedback!

1 Comment

  • Tânia Posted Abril 13, 2021 4:45 pm

    Faz-me lembrar as crónicas que eu lia do Miguel Esteves Cardoso no jornal Público. 😁

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