“Bartleby, O Escrivão”

“Bartleby, O Escrivão”

Partilha dos Leitores

Opinião da Leitora Noémia

Ao contrário do habitual, as possíveis considerações acerca de Bartleby, o escrivão, não
surgem logo após o término de leitura. Deixa-nos a pensar: o que é isto que acabei de ler? A
pergunta cola-se a nós, não nos larga, até percebermos a dimensão deste estranho conto e
aceitarmos que não há uma explicação nem banal, nem universal, nem certa, nem errada.
A forma como encaramos, ou absorvemos a personagem Bartleby, gostemos mais ou menos
da história em si, dependerá, provavelmente, das nossas vivências, do nosso percurso, da
etapa da vida em que nos encontramos, até da nossa própria personalidade. E é este o papel
da (boa) literatura, o dar espaço a múltiplas interpretações, esse espaço singular que nasce
entre um livro e cada um dos seus leitores . E é esta para mim, uma das características de um
clássico: a capacidade de se deixar reinventar, reinterpretar, reler, recontar em qualquer
tempo ou espaço, por qualquer leitor e, neste sentido, Bartleby devia constar na lista desses
clássicos intemporais.
Há quem veja por detrás da decisão de Bartleby de “preferir não fazer o que quer que seja” um
homem depressivo cuja falta de motivação o conduz a uma apatia desmedida; há quem veja
indícios de perturbações mentais; e há ainda quem veja a sua atitude como uma forma de
exercer o livre-arbítrio, a liberdade de escolha, uma fuga ao servilismo que hoje ainda se
verifica em muitos locais de trabalho e à ‘prisão’ de uma atividade que somos obrigados a
suportar para sobreviver. Para Bartleby, escolher entre “não fazer” e “não sobreviver” parece
ser um dilema já resolvido. Há nele uma persistência, uma resiliência, uma determinação que
raia a teimosia e quase que conseguimos imaginá-lo a gritar aos quatro ventos as palavras de
José Régio
“Vem por aqui”- dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui”!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
—Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe.
(…)
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou…
Não sei para onde vou,
Não sei para onde vou
—Sei que não vou por aí!
José Régio, Cântico Negro (1926

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