Lia muito. Depois fui mãe.

Lia muito. Depois fui mãe.

por Ana Sousa Amorim

Sempre gostei muito de ler. Bem, isto é mentira, não foi sempre. Comecei a ler obrigada assim que
comecei a escrever porque dava muitos erros. A minha mãe é professora e sabia que a leitura era
a melhor solução. Depois de algum tempo, a tarefa virou prazer. Devorava livros. Em casa, quando
esperava nas consultas, em férias, até quando recebíamos visitas sob o olhar condenador da
minha mãe. Mais tarde, na faculdade, acrescentei à minha definição de procrastinação ler, fugia
ao estudo mergulhando em thrillers daqueles que não queremos largar por nada. Houve um
revisão de matéria de processo Civil II que teve de esperar pela madrugada, precisava mesmo de
acabar o Shutter Island.
Quando comecei a trabalhar diminuí consideravelmente o ritmo, demorei a encontrar novo
equilíbrio. Passava horas ao computador, chegava a casa cansada e não arranjava rotina que
incluísse leitura. Mas depois de se instalar a normalidade, quando as horas se tornaram cotidianas,
encontrei estabilidade. Nas férias matava saudades da sofreguidão, mas mesmo com um ritmo
mais calmo, lia quase todos os dias. Os livros sempre como companhia.
Até ser mãe.
Mãe é sinónimo de origem, e aqui foi mesmo. Não é preciso explicar que ter um bebé pequeno
suga tempo. Ter três preenche todas as entradas de agendas. Contudo não era só uma questão de
tempo. O cérebro de uma mãe de bebés é tantas vezes um deserto. De ideias, de forças, de
encadeamento lógico de pensamentos. O meu era. Sentia-me exausta, mas de uma cor diferente
da de agora, estava vazia de iniciativa.
E os livros exigem de nós, puxam pela criatividade. São diálogo. Há outras formas de ócio e prazer
mais passivas, ler sempre me foi atividade. Leio e crio. Leio e questiono(-me). Leio e aprendo. Leio
e reflito.
Sentia-me incapaz de me propor a este diálogo. Não só porque raramente reunia o tempo para o
fazer sem interrupções, e nem sempre porque só tinha sono e sono sobre sono, mas também
porque tinha uma indisponibilidade mental para tal que me abraçou ao mesmo tempo que os
conhecidos baby blues e que demorou a deixar-me. Li umas coisas, mas sobretudo manuais de
maternidade: como pôr bebés a comer, a dormir, a falar, a andar, a existir. Tudo foi consumido
pela minha recém-função, e as histórias desapareceram da minha concentração, só havia espaço
para a estratégia de ser mãe e trabalhar com pouco tempo e muita privação de sono.
Voltei aos meus encontros com as páginas qual viciada em recuperação. Primeiro reconheci o
problema. «Não ando a ler nada de jeito. Estou burra porque não leio, não leio porque estou
burra. A verdade: não leio».
Depois aceitei-o. «Não consigo. Agora estou cansada. O que tiver de ser, será».
E então, quando comecei a dormir melhor, desafiei-me. Comecei a seguir pessoas nas redes que
falam de livros. Comecei a comprar livros que queria ler (mesmo já tendo outros que queria ler). E
comecei a falar sobre livros. Afinal, se livros são diálogo, porque não dialogar? O resto vem atrás.
Agora continuo cansada, mas descanso-me lendo.

Ana Sousa Amorim nasceu em 1988, em Coimbra, já leva mais de uma trintena de anos nesta
dimensão. Estudou Direito, primeiro porque queria ser diplomata e depois advogada. Quando
finalmente se tornou uma, não gostou. Decidiu estudar Tradução e desde então é tradutora
jurídica, juntou as línguas, de que sempre gostou, ao direito e trabalha a partir de casa para o
mundo todo. Nos últimos anos também é revisora de texto e copywriter. Gosta de escrever
porque sempre amou ler, os livros são companhia desde nova, ora de forma mais compulsiva, ora
de maneira mais despegada, conforme o humor e o tempo.
Em 2016 foi mãe e em 2017 repetiu a dose em forma dupla, vieram gémeos. Começou a carpir
mágoas da experiência mais avassaladora por que passou — a maternidade em dose tripla, num
mundo em que ter tempo é luxo — no blogue e página de Instagram com o nome Três antes dos
Trinta.

2 Comments

  • Mamã Piursa Posted Abril 5, 2021 8:48 pm

    Estou contigo. Recomecei a ler há pouco tempo. Mas é um enorme esforço mental. Sou capaz de ler por uma semana todos os dias e depois abandonar leituras a meio por estar exausta. De há um ano para cá, com o teletrabalho, deixei de ter a hora de comboio diária para chegar ao escritório, tempo que usava muitas vezes para ler. Agora estou a tentar encontrar o espaço mental e temporal para regressar à leitura regular.

  • Ângela Posted Abril 6, 2021 10:01 am

    Revejo-me totalmente nas palavras da Ana! Valeu-me uma grande amiga que me oferece sempre os livros certos nas horas certas e com isso me ajudou a retomar as leituras que tão bem me fazem. Parabéns pela crónica Sobre Tudo! beijinhos

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