Abriu a Livraria Ama Livros

De onde surgiu o sonho de abrir uma livraria? De onde vem esta paixão pelos livros?

Tinha oito anos quando a minha mãe me perguntou o que eu queria de presente no Natal. Pedi uma máquina de escrever. Passei a escrever histórias, a copiar histórias de outros livros e a  brincar às bibliotecas, onde fazia cartões para leitores invisíveis. Passei a fingir que era uma escritora e a escrever as primeiras frases. Apaixonei-me perdidamente pelo mundo encantado dos livros. 

Lia todos os dias. Tudo o que encontrava. Os livros sempre foram os meus maiores amigos. Sobretudo na forma como lidava com a perda do meu pai. Passava muito tempo na história dos outros, para poder melhorar a minha.

Tive a sorte de ter professores atentos que nunca esquecerei. Fui para a escola, escrevia e lia algumas palavras, mas foi a minha professora Elisa que me ensinou a ler em condições, estava sempre muito entusiasmada com o meu gosto pela leitura e escrita. Incentivou-me sempre. No quinto ou sexto ano, conheci o meu professor de português, incansável na forma como nos entregava as histórias. Nunca vi tanto amor pela língua portuguesa como vi naqueles olhos. Concursos de poesia, músicas, peças de teatro, escrita com tema livre. Lembro-me de dizer, “escreve, Cláudia, tu és muito criativa, imaginativa e tens paixão”. Nunca o esquecerei. Foi importante na forma como me encorajou a escrever e a ler de tudo um pouco. Nunca desistiu de mim. 

A leitura é a forma como lido com tudo. A forma que encontrei para lidar com situações de perda, conflito, tristeza, alegria, euforia. Foram os livros que me ajudaram na fase dos primeiros amores e seus finais dramáticos. Curavam todas as desilusões. Ainda são os meus maiores companheiros em dias de aflição ou derrota.

Com a paixão aumentando, senti necessidade de falar de livros com os outros. Primeiro com quem estava próximo, mais tarde, através da internet. Quando descobri o mundo do booktube no Brasil ( a Valéria foi a primeira que eu conheci) abriu-se uma janela para o mundo. Recebi de presente a primeira câmara de filmar (ainda a guardo), do meu actual parceiro (que sempre me incentivou a perseguir os meus sonhos e foi incansável em deixar-me um sorriso no rosto), criei o meu próprio canal no YouTube. Já escrevia sobre livros nos vários blogues que fui tendo, mas o vídeo foi o formato onde me senti mais confortável. Ainda hoje.

Aprendi tudo sozinha, à procura de conseguir fazer mais e melhor. A minha curiosidade, o meu desejo de aprender mais sobre mim e os outros, nunca me deixou sossegada. Não tenho vergonha do meu processo, foi tudo uma aprendizagem. Ainda o é. Ainda não sei nada.

Mais tarde, quando engravidei avisaram-me que nunca mais ia conseguir ler. Recebia comentários nos blogues “os livros têm data contada na tua vida”. Eu não acreditei, mas com medo, comecei a preparar-me. Na minha cabeça era impensável deixar de fazer algo de que gostava tanto. Era como se tivesse de deixar de dormir ou cuidar de mim. 

Decidi aprender como gerir o meu tempo e descobri o método Bullet Journal. Mas nada me preparou para as noites infinitas de insónias, privação de sono e horas eternas de amamentação. Foi aí que o Kobo entrou na minha vida. Facilitando e alegrando as minhas noites e dias. 

Os livros estiveram do meu lado quando mais ninguém esteve. A maternidade pode ser bastante solitária. Toda a gente a trabalhar, menos tu. Toda a gente ocupada enquanto tu mudas fraldas como se não houvesse amanhã. 

Ser mãe transformou-me, deu-me força para ir atrás dos meus sonhos. Não me paralisou, pelo contrário. Agitou-me por dentro. A responsabilidade acrescida de ter 4 crianças para educar e a depender dos meus esforços. Garantir que nada lhes falta é a minha maior preocupação. Sempre trabalhei de forma incansável. Desta forma, abro o meu próprio negócio realizando o meu maior sonho, ter uma livraria. São anos de muita dedicação para chegar até aqui. 

O ano passado, durante a quarentena, decidi mudar de vida. E procurei espaços físicos para abrir a minha livraria. Mas os dias empurraram-me sempre para aqui. O digital, a comunidade de leitores que encontrei no Instagram. E foram eles que me deram força suficiente para não desistir. Aqui estou.

O sonho nasceu antes de ser um sonho. Sem perceber. Só agora, olhando para todas as minhas escolhas, entendi que os livros sempre foram o meu caminho. A máquina de escrever foi o primeiro tijolo desta livraria. A primeira letra da minha história. 

Sejam bem-vindos à Livraria Ama Livros. Estejam à vontade. Que um dia o café seja servido por mim, enquanto folheiam os livros. Por enquanto, vamos espalhar o amor pelos livros, seja da forma que for.

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2 Comments

  • Carina Paulo Posted Março 31, 2021 11:24 am

    Muitos parabéns Cláudia, que este teu sonho concretizado te leve longe e que um dia possamos beber café enquanto folheados um livro. Um beijinho grande ❤️

  • Ana Posted Março 31, 2021 10:58 pm

    Um sonho tornado realidade. Muitos parabéns .

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