“A Polícia da Memória”

“A Polícia da Memória”

Partilha dos Leitores

Opinião da Leitora Noémia

A Polícia da Memória insere-se claramente nos parâmetros clássicos de uma distopia,
transportando-nos aos mundos de Huxley e de Orwell: desenrola-se num local imaginário, num
sítio indefinido, onde não falta uma elite poderosa, violenta e repressiva e as personagens
tipificadas do género: aquele que não contesta aquilo que acredita ser inevitável e mantém
vivo o discurso pessimista; o dissidente, fugitivo, obrigado a viver em reclusão, mas que
mantém ainda a esperança numa salvação da humanidade tal como a conhecemos; e a
narradora, romancista de profissão, personagem-ponte entre estes dois extremos e em torno
de cuja vida e discurso se desenrola toda história. Até aqui, parece um livro banal. O que o
destaca será, por um lado, a mistura com características do realismo mágico ao estilo de
Garcia Marquez, onde se incluem elementos mágicos nunca explicados e que fazem parte
daquilo que as personagens veem com a sua ‘normalidade’
(a perda automática das memórias)
e, por outro lado, a narrativa paralela do romance com que a narradora se ocupa no momento
e que, a certo ponto, vai confluir com a narrativa principal na mensagem a transmitir. Ao estilo
dos escritores japoneses, é a forma como esta simplicidade aparente da abordagem e da
escrita transporta uma mensagem tão profunda que é tão cativante neste livro. É um aviso ao
presente e um apelo ao futuro
: podem privar-nos de tudo, mas apenas nos retirarão a
humanidade quando nos retirarem as palavras e a nossa própria voz. E, num tom otimista,
como que a dizer-nos que ainda vamos a tempo, é a voz da esperança que subsiste no final.

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